Obrigada, moço!

Disciplina Histoire du droit des étrangers, Mademoiselle Coxinha nos deu como tarefa um petit mémoire sobre assunto de nossa escolha. Suzana e eu decidimos falar sobre a imigração italiana no Brasil e acabei encontrando um livro de 1908 escrito por um moço chamado René Le Conte. Obrigada, viu, moço! Acho que fui a única pessoa a consultar sua tese de doutorado aqui no campus (a julgar pelo fato das páginas não terem sido sequer cortadas no topo), mas foi um prazer recortar as folhas envelhecidas que se desmanchavam para conseguir accéder o conteúdo.

A tese do moço foi muito pertinente para a época. Escolheu um tema atual, levantou dados interessantes… A emigração italiana foi muito intensa entre 1870 e 1900 e o moço discorreu páginas e mais páginas sobre os fatores que levaram ao êxodo, sobre as condições de vida dos italianos nos países d’accueil e até deu dicas para os futuros emigrantes. Em relação ao Brasil, apontou o sul como uma região agrária promissora, condenou São Paulo em função das condições semi-escravas de trabalho nos cafezais e nas indústrias e apontou a Bahia como um bom mercado para o comércio de importados.

Acho que a tese dele bombou na época. Ele retratou um fenômeno que influenciou a política emigratória italiana nos anos subsequentes e o professor deve ter dado uma notona pro moço. Só que depois ninguém leu o trabalho dele, ao menos na biblioteca de Direito e Letras de Gre. Pois bem, moço: eu li!! Desvirginei seu livro nos Alpes franceses e te agradeço por um dia ter decidido pesquisar e registrar os resultados. Portanto, moços, escrevam!! Escrevam sempre que pode ser que um dia, em cem anos, alguma Carolina tenha vontade de ler.

Obs.: “Cortar” o livro não significa destruir o mesmo ou brincar de fazer colagens. Não sei bem como funcionava a encadernação de livros em 1908, mas o exemplar que retirei na BU Droit-Lettres estava praticamente lacrado, as páginas grudadas pelo topo, impossível passar as páginas e ler o texto (foto 2). Acho que recortando as páginas dos capítulos que precisei consultar acabei ajudando a moça bibliotecária que o deveria ter feito antes de me entregar a tese.

Obrigada pela nova técnica para colocar a fronha

Recebi visita. Era uma moça bonita bordada de flor pra alegrar meu fim de semana e me fazer reviver, às vésperas de voltar para o Brasil, as vibrações da minha chegada à França. Quase dois anos se passaram, vivemos muita coisa de lá pra cá, mas sei que ainda não foi o suficiente. Por isso mesmo estarei de volta em julho e adoraria receber a notícia de que ela também permanece no Hexagone.

Sempre gostei dessa menina, desde a primeira soirée no Jardin de Ville. Ao menos é o primeiro registro que tenho de ter “prestado atenção” na moça. Tenho vergonha de lembrar tão vagamente da primeira vez que nos vimos, do sanduíche e da salada. Mas eu não podia prever que aquela moça se tornaria parte de mim, e parte assim, tão significativa. Além do mais, àquela época eu não lembrava nem o caminho pra chegar em casa, quanto mais o momento exato em que conheci cada brasileiro nessa Grenoble de agosto. Tá, confesso: até hoje eu preciso ser apresentada cinco vezes a cada novo amigo para no sexto encontro eu saber “com certeza” que já vi essa pessoa antes… Só lembro em detalhes mesmo é de quem conheci na secretaria da residência… É! Vão-se os noivos e ficam as panelas e certas memórias. ;)

Primeiras impressões da moça de vestidos de boneca: é divertida e espontânea, muito inteligente e dona de um futuro tão promissor. Canta desafinado. E o tempo todo. E mais tarde descobri que gostava de interromper as músicas que estávamos cantando nos luais (?) para pedir algumas que só ela sabia cantar. Mas assim eu descobri que ela gostava de boa música, só não tinha muita noção de tempo, oportunidade e espaço. Afinal, os meninos nos brindando com o hino da FEG já era um indício de que eles não sabiam tocar Chico Buarque…

Ficamos amigas. Desde sempre e pouco a pouco. Foi pra ela que narrei meu “colorido” filme europeu de agosto, minhas semiperipécias de setembro, minhas estréias de novembro (e de dezembro), o “antes do amanhecer” de maio, os detalhes psicopatas de um mês que não lembro mais. Pra ela omiti minhas transformações de março e só mais tarde fui ver que não precisava ter-lhe omitido nada. E sou muito feliz por ela confiar em mim. Confiar em minha razão, confiar em minha desmesurada emoção, confiar que eu sei o que estou fazendo. É que quando falo em voz alta, e pra ela, eu adquiro essa confiança e desfaço nós que teimam em perturbar meu juízo vez em quando.

Quase nunca é possível sentir plenitude. Nem todo momento da vida é igual a uma tarde no Musée de Cluny viajando pelos amores, pelo cristianismo, pela história da humanidade. Sobre as irmãs que a vida traz, eu acho mesmo que tive sorte. Em um intervalo de 25 anos consegui conhecer e cativar duas: Adma e Lorreine. E quando eu penso que elas me amam eu sinto que sou alguém de valor. Quando eu vejo duas pessoas tão únicas e enormes escolhendo a mim como companheira de vida, como parte do que lhes importa, eu vejo de onde pode surgir uma senhora do universo.

Lorreine e eu somos Colocs sem nunca termos morado juntas. Costumamos dizer que somos colocs de consideração, que tínhamos planos de dividir um apartamento em Grenoble/2010, mas mesmo não o fazendo ficou a intenção. Mas, sabe, Lorreine, considerando que temos muitas casas ou casa nenhuma, acho que somos não-fictícias colocs em uma maison grande e azul que se déplace no espaço e por onde podemos nos déplacer à vontade. Pensa bem! Pensa se a gente não mora no mesmo lugar, uma ao alcance da outra a um click, um torpedo, um e-mail, um appel, um pedido, um passo, uma lembrança. Não consigo lembrar de um momento depois que nos tornamos colocs em que você não esteve aqui do lado. Não consigo lembrar de um dilema, uma atitude, uma vivência não dividida com você.

Eu só queria agradecer por ter cuidado com carinho dos meus bichinhos de estimação, por ter me deixado fazer ao menos um jantar, por me deixar te aconselhar sobre teimosia, por me mostrar com delicadeza meus defeitos, por prestar atenção ao que falo e por se esforçar pra me entender mesmo quando minhas falas não têm motivo, fundamento ou procedência. Por passar tardes ouvindo minhas histórias, por me contar as suas! Eu fico grata e plena quando você me julga digna de saber da sua vida. É uma honra, Coloc. E acima de tudo, obrigada por me ensinar a colocar uma fronha num travesseiro. Agora eu posso dizer com certeza que você mudou a minha vida.

Para o caderno de Adma

“Cássio, eu escreveria de tratados jurídicos a novelas. É só me dar papel e caneta.”

(Carolininha, 31 de janeiro de 2011)

Sachsenhausen, Alemanha

Campo de trabalhos forçados próximo a Berlim

Peço desculpas pelo mau jeito, pelo sorriso mal dado, mas a importância de registrar-me presente era tanta que precisei incluir-me na foto. Mas pose para foto pede sempre sorriso – à espera do click ficamos sem graça se não demonstramos graça. Da parte de dentro, entretanto, um certo incômodo não permitiu que fosse, o sorriso, sincero. Sempre gosto de pensar que fazendo viagens pela Europa, conhecendo lugares, finalmente vivo a fantasia de entrar nos livros de História. Entre os destinos escolhidos para o fim de ano incluí um percurso não tão convencional, nada festivo, um turismo humanitário. O desconforto que se lê nesse esboço de sorriso é por estar diante de um campo de concentração próximo a Berlim e não saber exatamente como posar de turista em tal lugar. Por isso não apareço nas próximas fotos. Sem sorrisos.

Entre 1936 e 1945 (regime nazista) cerca de 200.000 pessoas passaram pelo campo de trabalhos/concentração

Acompanhados pela guia refizemos o percurso dos prisioneiros. De início este não era um campo de extermínio, mas de trabalhos. Judeus, prostitutas, homossexuais e criminosos eram ali colocados e marcados de acordo à “categoria” (sendo os judeus os piores). Logo na entrada e diante da casa do responsável pelo campo recebiam seus números de identificação e pijamas, tinham suas cabeças raspadas e perdiam suas identidades. O início de um processo contínuo e repugnante de desumanização. Empurrados sob a filosofia de que o trabalho dignifica, ao cruzarem o portão entravam num inferno ao qual eu, sem dúvidas, não teria sido capaz de sobreviver. … continue reading this entry.

Remediado está

Depois de um ano vivendo na França me dei conta do quão sortuda fui por ficar doente apenas em “dias úteis”. Primeira constatação interessante é que aqui você vai à emergência do hospital para ser redirecionado a um consultório aletório em Échirolles (mesmo existindo um mais próximo na Chavant). En plus, nesse estranho e delicioso país as farmácias não ficam abertas aos domingos… Após duas farmácias fechadas foi que me dei conta disso. Aqui eles dipõem de um service de renseignement par téléphone (3915) ou pela internet (google = pharmacie de garde, grenoble) e consultando-o encontramos duas farmácias abertas por domingo na cidade inteira. Dispor de um “celular sabido” nessas horas faz toda a diferença: salve o wifi, dá-lhe googlemaps e pronto! Postar no blog via blackberry também é pas mal, hein!

Allons enfants de la patrie, independência ou morte!

Hoje, na França, não é feriado, mas o país inteiro decidiu declarar greve e está o mesmo clima… Até a chuva que cai em Conquista deu o ar da graça também em Grenoble. Quando criança eu costumava desenhar a giz toda a calçada com bandeiras do Brasil. Adolescente, ia orgulhosa com a Maçonaria desfilar pela Avenida Brumado entre Filhas de Jó, DeMolays e mestres maçons, enquanto um locutor narrava a história da Maçonaria em Conquista, seus princípios e destacava o patriotismo. Também desfilavam as escolas públicas, os soldadinhos do Tiro de Guerra e era a deixa para Painho que sempre contava a mesma história de como é importante o serviço militar na formação de um homem, de um brasileiro, do soldado disposto a morrer pela pátria. Ufanista na medida, aprendi o Hino Nacional, Hino da Bandeira, Hino da Independência e era a única da turma que sabia o Hino de Conquista (o de 2 de Julho, curtinho que é, nunca consegui gravar). Deve ser por isso que eu era tão esquisitinha no ginásio, nada popular… Até conhecer o axé!

Sempre gostei de hinos e, velha, acho às vezes que nasci em época errada. Nas aulas de História de minha eterna mestra Mércia eu embarcava, viajava para  o contexto histórico e tentava pensar como quem ali vivera. Fazia associações, anacronias e imaginava a motivação daquele a quem era incumbida a função de criar um hino, uma melodia letrada que fizesse unidos e representados os cidadãos. Um hino que evocasse a emoção, a solidariedade, o sentimento, que fizesse-nos una enquanto nação. E o da Independência me parece tão contextualizado, de letra tão simples mas tão coerente com o momento histórico, que gosto de cantarolar vez em quando o refrão: “Brava gente brasileira, longe vá… temor servil: ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!”.

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Repertório Dalloz

Aos estudantes de Direito:
O site disponibiliza gratuitamente uma série de revistas jurídicas, códigos, jurisprudências e comentários de julgados que podem ser uma mão na roda durante o curso.

Pausa monográfica

Pensando direitinho, até que eu me saí bem. Em dois dias completarei um ano nessa aventura na qual embarquei e a proximidade do aniversário me remete àqueles pensamentos-julgamentos de sempre. Em 30 de julho de 2009 eu cruzava o Atlântico rumo ao desconhecido, sem muita certeza do que eu iria encontrar, mas esperançosa e consciente de que tinha tomado a decisão mais acertada. Não falava bem o francês, nunca havia saído da Bahia (exceto a jornada em Brasília para retirar o visto), nunca havia me separado da minha irmã, nem sequer cogitava deixar de viver em Conquista.

Mas se tem uma lembrança que trago, é a da minha postura naquele dia 31. Sim, porque saí de casa no dia 30, mas pisei no Velho Mundo no lendemain. E era exatamente essa noção de lendemain, d’avenir, do porvir que preenchia o meu espírito. Eu não sabia nada, não tinha noção de como me virar sozinha, sem a guarda precisosa dos meus amorosos pais, e ainda em francês! Porém, aquele estado de espírito, aquela crença em mim, a convicção na “não Barbie” me encheram de coragem. E hoje eu me sinto orgulhosa por ter ousado e por ter descoberto tanto, fora e dentro de mim.

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O insustentável preconceito do ser!

Por Rosana Jatobá*

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.
Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:
- Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park”, disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….
De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.
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Ai, delícia!!!

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