

Recebi visita. Era uma moça bonita bordada de flor pra alegrar meu fim de semana e me fazer reviver, às vésperas de voltar para o Brasil, as vibrações da minha chegada à França. Quase dois anos se passaram, vivemos muita coisa de lá pra cá, mas sei que ainda não foi o suficiente. Por isso mesmo estarei de volta em julho e adoraria receber a notícia de que ela também permanece no Hexagone.
Sempre gostei dessa menina, desde a primeira soirée no Jardin de Ville. Ao menos é o primeiro registro que tenho de ter “prestado atenção” na moça. Tenho vergonha de lembrar tão vagamente da primeira vez que nos vimos, do sanduíche e da salada. Mas eu não podia prever que aquela moça se tornaria parte de mim, e parte assim, tão significativa. Além do mais, àquela época eu não lembrava nem o caminho pra chegar em casa, quanto mais o momento exato em que conheci cada brasileiro nessa Grenoble de agosto. Tá, confesso: até hoje eu preciso ser apresentada cinco vezes a cada novo amigo para no sexto encontro eu saber “com certeza” que já vi essa pessoa antes… Só lembro em detalhes mesmo é de quem conheci na secretaria da residência… É! Vão-se os noivos e ficam as panelas e certas memórias.
Primeiras impressões da moça de vestidos de boneca: é divertida e espontânea, muito inteligente e dona de um futuro tão promissor. Canta desafinado. E o tempo todo. E mais tarde descobri que gostava de interromper as músicas que estávamos cantando nos luais (?) para pedir algumas que só ela sabia cantar. Mas assim eu descobri que ela gostava de boa música, só não tinha muita noção de tempo, oportunidade e espaço. Afinal, os meninos nos brindando com o hino da FEG já era um indício de que eles não sabiam tocar Chico Buarque…
Ficamos amigas. Desde sempre e pouco a pouco. Foi pra ela que narrei meu “colorido” filme europeu de agosto, minhas semiperipécias de setembro, minhas estréias de novembro (e de dezembro), o “antes do amanhecer” de maio, os detalhes psicopatas de um mês que não lembro mais. Pra ela omiti minhas transformações de março e só mais tarde fui ver que não precisava ter-lhe omitido nada. E sou muito feliz por ela confiar em mim. Confiar em minha razão, confiar em minha desmesurada emoção, confiar que eu sei o que estou fazendo. É que quando falo em voz alta, e pra ela, eu adquiro essa confiança e desfaço nós que teimam em perturbar meu juízo vez em quando.
Quase nunca é possível sentir plenitude. Nem todo momento da vida é igual a uma tarde no Musée de Cluny viajando pelos amores, pelo cristianismo, pela história da humanidade. Sobre as irmãs que a vida traz, eu acho mesmo que tive sorte. Em um intervalo de 25 anos consegui conhecer e cativar duas: Adma e Lorreine. E quando eu penso que elas me amam eu sinto que sou alguém de valor. Quando eu vejo duas pessoas tão únicas e enormes escolhendo a mim como companheira de vida, como parte do que lhes importa, eu vejo de onde pode surgir uma senhora do universo.
Lorreine e eu somos Colocs sem nunca termos morado juntas. Costumamos dizer que somos colocs de consideração, que tínhamos planos de dividir um apartamento em Grenoble/2010, mas mesmo não o fazendo ficou a intenção. Mas, sabe, Lorreine, considerando que temos muitas casas ou casa nenhuma, acho que somos não-fictícias colocs em uma maison grande e azul que se déplace no espaço e por onde podemos nos déplacer à vontade. Pensa bem! Pensa se a gente não mora no mesmo lugar, uma ao alcance da outra a um click, um torpedo, um e-mail, um appel, um pedido, um passo, uma lembrança. Não consigo lembrar de um momento depois que nos tornamos colocs em que você não esteve aqui do lado. Não consigo lembrar de um dilema, uma atitude, uma vivência não dividida com você.
Eu só queria agradecer por ter cuidado com carinho dos meus bichinhos de estimação, por ter me deixado fazer ao menos um jantar, por me deixar te aconselhar sobre teimosia, por me mostrar com delicadeza meus defeitos, por prestar atenção ao que falo e por se esforçar pra me entender mesmo quando minhas falas não têm motivo, fundamento ou procedência. Por passar tardes ouvindo minhas histórias, por me contar as suas! Eu fico grata e plena quando você me julga digna de saber da sua vida. É uma honra, Coloc. E acima de tudo, obrigada por me ensinar a colocar uma fronha num travesseiro. Agora eu posso dizer com certeza que você mudou a minha vida.