Sachsenhausen, Alemanha

Campo de trabalhos forçados próximo a Berlim

Peço desculpas pelo mau jeito, pelo sorriso mal dado, mas a importância de registrar-me presente era tanta que precisei incluir-me na foto. Mas pose para foto pede sempre sorriso – à espera do click ficamos sem graça se não demonstramos graça. Da parte de dentro, entretanto, um certo incômodo não permitiu que fosse, o sorriso, sincero. Sempre gosto de pensar que fazendo viagens pela Europa, conhecendo lugares, finalmente vivo a fantasia de entrar nos livros de História. Entre os destinos escolhidos para o fim de ano incluí um percurso não tão convencional, nada festivo, um turismo humanitário. O desconforto que se lê nesse esboço de sorriso é por estar diante de um campo de concentração próximo a Berlim e não saber exatamente como posar de turista em tal lugar. Por isso não apareço nas próximas fotos. Sem sorrisos.

Entre 1936 e 1945 (regime nazista) cerca de 200.000 pessoas passaram pelo campo de trabalhos/concentração

Acompanhados pela guia refizemos o percurso dos prisioneiros. De início este não era um campo de extermínio, mas de trabalhos. Judeus, prostitutas, homossexuais e criminosos eram ali colocados e marcados de acordo à “categoria” (sendo os judeus os piores). Logo na entrada e diante da casa do responsável pelo campo recebiam seus números de identificação e pijamas, tinham suas cabeças raspadas e perdiam suas identidades. O início de um processo contínuo e repugnante de desumanização. Empurrados sob a filosofia de que o trabalho dignifica, ao cruzarem o portão entravam num inferno ao qual eu, sem dúvidas, não teria sido capaz de sobreviver.

Um museu funciona hoje nas instalações do antigo campo

Passei por três horas de desconforto intenso. Fazia muito frio, mas o que me tirava do eixo não era o mal-estar físico, o gelo que parecia ter se integrado às minhas mãos ou os pés que não conseguia mais sentir. Eram as imagens que se formavam em minha mente, a recordação de cenas d’A Lista de Schindler ou de Olga, de documentários ou de livros de história. Era destrinchar aquele lugar e me transportar àquela época. Eu não me atrevia a me queixar do frio. Eu não tenho idéia do que seja sofrimento. Eu não tenho nada a me queixar da vida. Ao menos não me senti, ali, no direito de fazê-lo. Três horas exposta àquela ínfima temperatura, mas com casaco e botas para neve, acompanhada de amigos numa visita cultural é conforto, luxo! Passar anos naquele mesmo espaço realizando trabalhos forçados e suportando humilhações indescritíveis, enfrentando de pijama o frio e morrendo aos poucos sem alimentar-se, isso é sofrimento. Não é que não tenha lido livros ou visto filmes sobre o que foi essa guerra, mas estar naquele campo tornou mais concreto algo que, narrado, soa surreal. Algo que de tão absurdo a mente tenta abstrair de algum modo que torne a idéia ao menos suportável. Senão, como conviver com certas verdades?

Após a Segunda Guerra (até 1948) o agora Campo Especial n. 1 recebeu cerca de 60.000 prisioneiros (regime soviético)

Não descendo de judeus, não tenho apego a religiões e, sinceramente, não me importo muito com as concepções que se tem de Deus ou de qualquer outra entidade dita superior. Assim, nunca dei razão a guerras santas, a grupos que se jugam salvos (sabe-se lá de quê!) e reivindicam direitos fundados em interpretações abstratas e, portanto, minha posição aqui não é simpática aos judeus por serem judeus. Digo isto porque não quero deixar margem alguma para interpretações ou apropriações religiosas deste texto. À parte a questão judaica, me importa é a questão humana. O que me preocupa é o fato de um grupo social ter decidido que um outro grupo não compunha a família humana e deveria submeter-se a um tratamento degradante. Sou a favor do que é humano e contra tudo que nos atente à dignidade. E lamento profundamente o que houve com essa comunidade de humanos, os judeus.

Saí do campo e dias depois ainda me ecoava uma incoerência, essa incompreensão. Visitei um dos barracões e senti dor. Imaginava aquelas pessoas ali amontoadas, sujas, desnutridas, mal tratadas, humilhadas, torturadas, exploradas, violentadas, coisificadas, esquecidas. Minha modesta inteligência sabe que ante provas não há como negar essa verdade histórica – o holocausto – mas teima em não alcançar as razões ou desculpas que conduziram a sociedade da época a admiti-lo, a passiva ou ativamente legitimar aquilo. E de repente, questionando a sociedade de outrora, lembrei que a mesma crítica pode ser feita à atual.

Olhando aquelas camas onde pessoas eram sobrepostas, enjauladas como animais, maltratadas e subjugadas por um grupo mais forte que se sabia e se fazia superior, foi inevitável pensar nas superlotadas penitenciárias brasileiras onde os internos não raras vezes são submetidos às mesmas condições de acomodação. Em outro contexto, em outra época, um grupo (cidadãos) julga-se superior a outro (delinquentes, inimigos) e ativa ou passivamente valida a categorização que, mais uma vez, permite que certos seres humanos sejam tratados como animais. Mas atenção: não estou dizendo sermos nazistas nós, “os homens de bem” (intrigante expressão), nem pregando o abolicionismo penal. Para entender meu argumento é preciso desarmar-se.

Para evitar equívocos, abstraiam as motivações políticas (que são distintas). Como expliquei, meu foco é o ser humano, sem categorizar-nos. Aos que se espantaram e acharam absurda a relação que fiz, enuncio que não se trata de comparar ou opor “judeus inocentes” a “criminosos maléficos”, “vítimas” a “agressores”. Mas ao questionar a apatia (ou impotência) daquela sociedade, me foi inevitável indagar a NOSSA apatia diante da violação de direitos humanos. A semelhança que vejo está nos fundamentos, independe das circunstâncias. Explico: homens amontoados numa cela capixaba superlotada formam a mesma imagem de homens amontoados num dormitório de um campo de concentração nazista. Judeus, ateus, assassinos, estelionatários, ladrões de galinha e, por que não, nazistas, todos pertencem à espécie humana. E nenhum deveria ser desumanamente tratado.

câmaras de execução

câmaras de execução

câmaras de execução

Vi de perto esse lugar que foi edificado por seres humanos para desumanizar seus iguais. Visitei suas dependências, os barracões, as câmeras onde eram executados, as zonas de detenção (sim! dentro do inferno havia ainda algo pior), o campo de trabalhos propriamente dito, a “enfermaria” onde eram realizados experimentos médicos. Contive as lágrimas durante toda a visita. Mas, à porta da enfermaria, enquanto a guia nos explicava os experimentos que aconteciam lá dentro, abracei Jônatas e chorei. Não suportei imaginar os pensamentos daquelas vítimas, a consciência de não se saber mais humano e a incompreensão do porquê, por que com eles… ter arrancada a dignidade, removida a própria essência da humanidade, ver-se reduzida a cobaia, não há Livro de Jó que nos fortaleça nesse derradeiro instante de “vida”.

Cozinha do campo de concentração

Coisa que me chamou atenção naquelas instalações foi a parede da cozinha. Havia uma pintura, flores. Um pouco de cor numa subvida cinza e arrastada. Não sei explicar, mas me comoveu. Um resquício de beleza, uma lembrança de algo além, sabe-se lá o que aquela imagem tão singela poderia evocar naquelas circunstâncias. Encarando aquela parede pensei que vivendo ali durante o regime nazista, desejaria ter cerrados os olhos para tudo à minha volta, exceto para aquela imagem.

Memorial em honra aos prisioneiros mortos no campo

Incomoda muito saber o que se passou e ver fragmentos do erro sendo praticados ainda hoje. O erro de tantas vezes nos julgarmos superiores aos outros, o erro de não intervirmos diante do injusto, de legitimarmos práticas discriminatórias, de não nos importarmos com o que não nos afeta diretamente, o erro da indiferença.  Visitar aquele campo me perturbou sobremaneira por lamentar o que houve no passado, por termos essa cicatriz na História. Mas o que me magoou especialmente foi a sensação de que repetimos os mesmos erros, talvez em diferentes intensidades, contra novos alvos, em outros contextos e consequências (incomparáveis?). O desumano é sempre o desumano. É guerra dita santa, é regime nazista em nome de um país forte, é colonização do Novo Mundo, é abandono da África pós-colonial, é genocídio indígena nas Américas, é cadeia superlotada, é atear fogo em um índio num banco de praça, é ficar indiferente aos assassinatos diários de “pivetes” e “flanelinhas”, é admitir a prática policial e militar da tortura, é  a Monsanto, é desprezar nordestino, é não impor uma reforma agrária, é eliminar transexual de Big Brother, é discriminar ateu, é excluir um deficiente, é subjugar/explorar/violentar/apedrejar/coisificar uma mulher, é humilhar um negro, é não respeitar o diferente, é fechar os olhos para o que sofre o outro, para o que é o outro.

Mas ainda não estamos nem na metade da História… com passos de formiga a gente vai avançando e, aos poucos, aprendendo com a memória da humanidade. Ouvi dizer que só existe um fim e que até lá tudo é progresso…

8 Comentários »

  1. Lorreine Beatrice Disse:

    Muito bom post, coloc! Deve ser o tipo de visita indispensável e dilacerante ao mesmo tempo. Triste é pensar que ainda existe muita “desumanidade” por aí, sob diferentes formas e em “outros campos de concentração”.
    Beijos, pequena.

  2. Ah! mas está maravilhoso esse texto!

    Até eu, que reclamo de tudo, não achei lugar onde pôr o dedo. Pelo contrário, fiquei bastante satisfeito com alguns exemplos pouco usuais que a Carolininha utilizou.

    Muito correto, muito lúcido, carregado de emoção e uma delícia de ler!

    Beijo.

  3. Gui Disse:

    parabens carol!
    pelo texto.
    essas fotos estão maravilhosas quem foi que tirou deve ser um artista!
    Brincadera parabens pelo texto
    bjaum

    • senhoradouniverso Disse:

      Nossa, mas o fotógrafo é mesmo excepcional! Chama-se Mariani o rapaz. Ele é “sensa”… ;)

  4. lais Disse:

    olá!!
    Sou do Rio de Janeiro e estou pensando seriamente em ir morar por ai pra terminar a faculdade… É tranquilo conseguir emprego e lugar pra morar?
    Gostei muito do seu post!
    obrigada!!!
    Laís

    • senhoradouniverso Disse:

      Oi Laís. Se você tiver a oportunidade de estudar fora, recomendo muito essa experiência! Há infinitas possibilidades, mas garanto que Grenoble vale muito a pena! Fique à vontade para pedir informações. O que eu souber eu conto! Abraço.

      • Leo Disse:

        Tenho que te corrigir Carol, as possibilidades são finitas. Tendo em vista a limitação de tempo de vidade de uma pessoa e do espaço ocupado por terras habitaveis no planeta Terra.

      • senhoradouniverso Disse:

        Leo, você ainda precisa aprender muito sobre o “savoir vivre”…


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